Com a chegada cada vez mais frequente de novos veículos eletrificados ao mercado brasileiro especialmente marcas que anunciam números expressivos de potência total instalada pela simples soma aritmética de seus motores, uma dúvida técnica tem gerado debates intensos entre entusiastas e engenheiros. Afinal, somar a força de um motor a combustão com a de múltiplos motores elétricos reflete a realidade do que o carro entrega nas rodas?
A prática recente de fabricantes que divulgam somas brutas de cavalaria sem considerar as perdas do sistema e os limites operacionais colocou o tema em evidência. Como o Brasil ainda carece de uma norma regulatória oficial específica para essa medição, o mercado utiliza parâmetros internacionais de engenharia.
Nesta matéria, explicamos por que a simples soma matemática é incorreta, como funcionam as arquiteturas híbridas e quais são os métodos globais da ONU adotados por especialistas para calcular a potência real.
Por Que a Soma Aritmética É Incorreta?
Marcas como a Jetour introduziram no mercado brasileiro modelos híbridos plug-in 4×4 divulgando potências totais instaladas altíssimas, como 597 cv obtidos pela soma direta de um motor a combustão e três motores elétricos. No entanto, especialistas ouvidos pela imprensa especializada apontam que, na prática, os propulsores não conseguem entregar essa totalidade simultaneamente às rodas.
Segundo o professor de engenharia mecânica Marco Barreto, da FEI, quando um veículo possui múltiplos motores, a potência máxima real de propulsão nunca equivale à soma das potências individuais. Isso ocorre por diversos fatores técnicos:
- Diferença de Rotação (RPM): Os picos de potência máxima do motor a combustão e dos motores elétricos raramente ocorrem na mesma faixa de rotação.
- Arquiteturas Distintas: O comportamento varia conforme o layout do sistema seja ele em série, paralelo ou série-paralelo. Na arquitetura em série, por exemplo, o motor a combustão atua apenas gerando energia, sem tracionar diretamente as rodas, limitando a força máxima à capacidade do motor elétrico.
- Gestão Eletrônica Prioritária: A eletrônica embarcada prioriza a eficiência energética e distribui torque dinamicamente conforme a exigência do motorista, e não de forma estática e total em todos os motores ao mesmo tempo.
O Vácuo Normativo no Brasil e as Regras Internacionais
Atualmente, o Brasil ainda não possui uma norma regulatória nacional consolidada sobre o tema, havendo apenas grupos de trabalho na Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA) que discutem um projeto de norma da ABNT para padronizar a declaração de potência em híbridos.
Diante dessa lacuna, as montadoras estabelecidas no país utilizam padrões e regulamentações internacionais rigorosas, como as normas ISO 20762 e os regulamentos da Organização das Nações Unidas: UN R177, UN GTR 21 e UN 85. Esses cálculos também são empregados para determinar a tributação associada ao programa IPI Verde.
De acordo com Cleyton Zabeu, membro do comitê de motores da SAE Brasil, os valores de potência em eletrificados devem ser comparáveis aos motores tradicionais. Por isso, a regulamentação internacional determina que o rendimento real seja medido pela potência combinada efetivamente disponível para a propulsão nas rodas, descontando as perdas do sistema.
Como Funciona a Metodologia de Medição da ONU?
Os regulamentos globais estabelecem duas abordagens técnicas principais para aferir a potência máxima de um veículo eletrificado:
1. Método TP1 (Medição Baseada em Componentes)
Consiste no ensaio independente dos principais subsistemas do trem de força (baterias, inversores e motores), aplicando fatores matemáticos de correção para estimar as perdas energéticas do conjunto.
2. Método TP2 (Medição no Veículo Completo)
Realizado em dinamômetros de chassi ou de cubos capazes de medir diretamente a força nos eixos motrizes. O veículo é submetido a testes sob aceleração máxima por janelas de tempo específicas, permitindo apurar com precisão:
- Potência de Pico: A maior média obtida em uma janela de aproximadamente 2 segundos.
- Potência Sustentada: A média medida de forma contínua entre o 8º e o 10º segundo de aceleração plena.
Perguntas Frequentes sobre Potência em Híbridos
O torque total dos motores elétricos e a combustão também pode ser somado?
Não da mesma forma aritmética. Assim como a potência, o torque máximo combinado depende da entrega conjunta em faixas de rotação compatíveis e da capacidade de gerenciamento da bateria e dos inversores.
Marcas estrangeiras costumam corrigir esses números após críticas?
Sim. Recentemente, fabricantes controladas por grandes grupos globais ajustaram publicamente os números de potência e torque de seus SUVs no Brasil ao passarem a adotar estritamente o Regulamento Técnico Global da ONU, sem alterar fisicamente a mecânica dos veículos.
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Fontes consultadas: https://quatrorodas.abril.com.br/noticias/e-errado-somar-a-potencia-de-todos-os-motores-em-carros-hibridos-entenda/
